Josué Rockefeller

Escritor, roterista e engenheiro de software

Translúcido – Roteiro, curta metragem

fev
19
          Termos de Roteiro                                                
                                                                           
          CAM: Câmera.                                                     
                                                                           
          FADE TO BLACK: A tela se fecha em preto, geralmente usado no     
          fim do episódio antes de aparecer os créditos.                   
                                                                           
          FADE IN: O surgir da imagem a partir de uma tela escura ou       
          clara, que gradualmente atinge a sua intensidade normal de       
          luz.                                                             
                                                                           
          ÂNGULO ALTO: Visão da câmera de cima para baixo.                 
                                                                           
          CÂMERA SUBJETIVA: Visão a partir dos olhos do personagem.        
                                                                           
          POV: O ponto de vista do personagem. É mostrado o que ele        
          vê. Durante o ataque de um assassino o ponto de vista da         
          vítima pode ver mãos enluvadas avançando em sua direção.         
          Isso é mostrado com as mãos avançando em direção à lente da      
          câmera.                                                          
                                                                           
                                                                           
          EXT. AVENIDA - DIA - MANHÃ                                       
                                                                           
                                                               FADE IN     
                                                                           
          Barulho de trovão. A CENA surge lentamente. ÂNGULO ALTO, um      
          HOMEM está parado entre uma multidão de pessoas, as quais        
          movimentam de um lado para outro, apressadas, preocupadas e      
          perdidas em seus pensamentos. CLOSE-UP em seu rosto, os          
          respingo de chuva escorrem pelo rosto do Homem, ele              
          permanece alí parado por alguns instantes.                       
                                                                           
          CÂMERA SUBJETIVA, o Homem observa as pessoas passarem na sua     
          frente. Volta para CLOSE-UP, o Homem pisca os olhos em SLOW      
          MOTION e sai do quadro. Lentamente a CAM se move para cima,      
          revelando os pingos de chuva caindo do céu.                      
                                                                           
                                                                           
          INT. LANCHONETE - DIA - MANHÃ                                    
                                                                           
          O Homem entra na lanchonete e caminha até o balcão, onde há      
          um ATENDENTE, que veste uma camisa branca, com listras           
          amarelas e uma calça jeans. Dentro da lanchonete há algumas      
          pessoas, que tomavam café tranquilamente, mas ao verem o         
          Homem entrar; elas olham para ele de forma repulsiva.            
                                                                           
                              ATENDENTE                                    
                    O que vai querer?                                      
                                                                           
          As pessoas voltam para as suas atividades.                       
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                           (CONTINUED)     
          CONTINUED:                                              2.       
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                              HOMEM                                        
                    Um copo de café, por favor.                            
                                                                           
          O Atendente prepara o café e entrega ao Homem.                   
                                                                           
                              ATENDENTE                                    
                    Deu dois reais.                                        
                                                                           
          O Homem retira uma nota de dez reais do seu bolso e coloca       
          em cima do balcão.                                               
                                                                           
                              ATENDENTE                                    
                    Desculpe, mas não aceitamos                            
                    pagamento em cédulas, apenas                           
                    cartão.                                                
                                                                           
                              HOMEM                                        
                    Mas não tenho cartão de crédito,                       
                    não uso isso.                                          
                                                                           
                              ATENDENTE                                    
                    É política de empresa.                                 
                                                                           
          O atendente dar de ombros e pega o copo de café. O Homem sai     
          da lanchonete.                                                   
                                                                           
                                                                           
          DO LADO DE FORA                                                  
                                                                           
          Ainda chove. O Homem coloca o seu capuz, enfia as mãos nos       
          bolsos da calça e caminha pela calçada, até parar em frente      
          a uma vitrine de uma loja de roupas.                             
                                                                           
          (POV) pelo vidro, ele vê uma linda mulher dentro da loja,        
          ela conversa e sorrir graciosamente com uma outra mulher. O      
          Homem a observa por alguns instantes, mas volta caminhar         
          pela calçada.                                                    
                                                                           
          (POV) Algumas pessoas passam por ele. As pessoas caminham        
          como zombis, e não despregam os olhos das telinhas               
          brilhantes em suas mãos. O Homem olha para um outdoor            
          digital, em um prédio do outro lado da rua. No outdoor está      
          passando um comercial de carro. Quando a propragrando acaba,     
          DOLLY IN uma legenda surge "Compre um carro e seja feliz". O     
          Homem volta caminhar pela calçada. Logo a frente.                
                                                                           
          (POV) Ele vê alguns policiais espancando alguém um beco. O       
          Homem para, mas não faz nada, ele volta a caminhar pela          
          calçada, até parar em um semáfaro. O Homem por alguns            
          instantes, pois o sinal ainda está vermelho para os              
          pedestres passarem. Algumas pessoas se arriscam e tentam         
          atravessar a pista, uma delas quase foi atropelada.              
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                  3.       
                                                                           
                                                                           
                                                                           
          EXT. ENTRADA DE UM SHOPPING CENTER - DIA - MANHÃ                 
                                                                           
          O Homem se depara com um MENDIGO sentado perto da entrada       
          do Shopping. O mendigo pedia esmola para as pessoas que         
          passavam, mas elas não o notava. O Homem para olha para         
          ele, retira uma nota de dez reais do bolso.                      
                                                                           
                              HOMEM                                        
                    Tome, é tudo que tenho.                                
                                                                           
          O Homem entrega a nota de dez reais ao mendigo.                 
                                                                           
                              MENDIGO                                     
                    Deus te pegue amigo.                                   
                                                                           
                              HOMEM                                        
                    Deus não me deve nada, mas creio                       
                    que essa nota talvez seja inútil,                      
                    pois ninguém aceita mais dinheiro,                     
                    a não ser que tenha um cartão.                         
                                                                           
                              MENDIGO                                     
                    Agradeço a preocupação, mas vou                        
                    fazer bom proveito dela.                               
                                                                           
          O Homem segue para entrada do Shopping.                          
                                                                           
                                                                           
          INT. SHOPPING - DIA - MANHÃ                                      
                                                                           
          Ao entrar no Shopping, o Homem nota que todos andavam como       
          zombies, olhando para um telinha brilhante em suas mãos.         
          Algumas sorriam para a telinha, outras se entristecem. A sua     
          esquerda, há dois casais sentados em uma mesa, mas ambos         
          olhavam para as telinhas em suas mãos, estavam tão pertos,       
          mas pareciam estarem distantes um do outro. Nas lojas, as        
          pessoas abarrotavam as mãos com sacolas de compras.              
                                                                           
          CAM foca em uma vitrine numa loja do segundo andar, há uma       
          placa de promoção. Dentro da loja, as pessoas correm de uma      
          lado para outro, esfomedas, selvagens; faziam de tudo para       
          pegar uma peça de roupa ou um par de sapatos primeiro.           
                                                                           
          Caminando pelo Shooping, o Homem vê banners, placas,             
          televisores, nos quais todos tem algo em comum. Publicidade      
          de produtos ou viagens, que sempre há uma imagem de pessoas      
          ou grupos, que esboçam um largo sorriso em seus rostos.          
                                                                           
          Ele sobe em uma escada rolante, indo parar na área de            
          alimentação. Entre todos na quele recinto, apenas um estava      
          sentado em uma mesa ao fundo do salão. Este não estava           
          comendo e nem havia motoados de sacolas de compras ao seu        
          lado, ou estava encarando uma telinha brilhante nas mãos,        
                                                                           
                                                           (CONTINUED)     
          CONTINUED:                                              4.       
                                                                           
                                                                           
                                                                           
          ele está apenas sentado, observando. A outra pessao o            
          encara, o Homem fica pasmo, pois a imagem a sua frente, era      
          a dele mesmo.                                                    
                                                                           
                                                                           
          INT. APARTAMENTO COMUM - SALA - NOITE                            
                                                                           
          É uma apartamento modesto, não há muitos móveis, apenais um      
          sofá, uma pequena mesinha de vidro no centro e uma instante      
          com livros ao lado da porta. O Homem entra e se senta no         
          sofá.                                                            
                                                                           
          CLOSE UP no rosto do Homem, ele fica imóvel, pensando sobre      
          o seu dia. ZOOM-IN lento, os olhos do Homem lacrimejam, fios     
          de lagrimas escorrem lentamente pelo seu rosto. O Homem          
          pisca.                                                           
                                                                           
                                                          FADE TO BLACK   
                                                                           
                                                                           

No fundo do poço

fev
04

Encarei o meu reflexo no espelho….

– Como cheguei a esse ponto? – pensei.

Eu estava um lixo, acabado. Lavei o meu rosto e voltei a fixar os meus olhos naquela imagem em decadência. Como sempre, o dia para mim era uma batalha infindável.

– Ahhh! Mais um dia! Quando isso vai acabar? – murmurei

No trabalho….

Eu olhava para tela do meu computador à minha frente, papeis empilhados ao meu lado, a desorganização na minha mesa era gritante, bem como o resto da minha vida. De repente, me deparei pensado nos tempos da juventude e refazendo as mesmas perguntas. O que aconteceu comigo?! Para onde foi aquele garotinho cheio de vida, entusiasmado e que um dia sonhava em conquistar o mundo?

Daí a pouco senti o gosto da amargura descer por minha garganta; sentia a respiração ofegante, o suor  escorrendo frio pelo meu corpo, pensava comigo mesmo que esse seria o meu fim, mas não era, era apenas a ansiedade batendo à porta.

Subitamente…

– Roberto! – me assustei, voltei à realidade. Olhei para o meu supervisor que me fitava.

– Que foi? – perguntei.

– Você é surdo?

– Não.

– Por que não atendeu o telefone?

– Desculpe, eu estava distraído, são problemas da vida… nada demais.

– Sem desculpas, preciso do relatório até sexta. E dessa vez, não se atrase, caso contrário, terei que tomar medidas drásticas.

– Pode deixar – respondi com a cabeça baixa.

– O que houve com você rapaz? Um dia você já foi um dos nossos melhores funcionários. Acho melhor você tirar o resto do dia de folga. Para ser franco, você está um lixo. Quando foi a última vez que você foi ao barbeiro e tomou um banho de verdade?

Ele tinha razão, eu havia me desleixado. Precisava de ar puro. Sai apressado do prédio e me sentei na calçada. Fios de lágrimas escorriam pelo meu rosto. Bradei-me a chorar…

– Por que a vida tem que ser tão difícil, por que precisamos sofrer tanto? – Dizia para mim mesmo sem uma resposta satisfatória.

Eu já não aguentava mais aquela carga emocional. O curioso era que as pessoas que passavam à minha volta, não me dava a mínima importância. Eu só precisava de um consolo, uma palavra amiga, mas sofria só, como muitos neste mundo. Estamos presos dentro de nós mesmos, cada qual em seu mundo obscuro e impenetrável.

Levantei-me e segui rumo à praça central, me sentei no primeiro banco que encontrei. Tempos depois, uma mulher que empurrava um carrinho de bebê, se senta ao meu lado. Dentro do carrinho, havia uma pequena e delicada flor, a qual aparentava ter menos de sete meses que estava aqui neste mundo. Aqueles olhos buliçosos, cheios de vida, encaravam-me, como se compreendesse o que eu estava sentindo. Seu rosto delineava um sorriso tão doce e ingênuo, que nunca o esqueci.

– Sorria o máximo que puder garotinha, você não tem a menor ideia do que a vida lhe aguarda. Ela é fria, cruel e impiedosa – disse eu.

A mulher olhou para min, de forma assustada, levantou-se e sai apressadamente sem olhar para trás.

Senti-me o coração arder, aquele não era eu. Fiquei ali, inerte, por horas, refletindo sobre a vida; sobre as minhas atitudes, procurando as causas dos meus problemas, do meu sofrimento, das minhas frustrações, eu procurava um culpado… uma desculpa, mas para a minha surpresa, não havia. Era primavera; tudo emanava vida e delicadeza. Nas arvores, as flores eram um espetáculo, cada qual mais bonita do que a outra, senti-me revigorado. Aí eu pude compreender que a vida é muito mais do que acreditamos ser. Que nada é por acaso, que sou responsável por cada ato, e os meus problemas eram insignificantes, frente as maravilhas da vida. Lembrei-me do sorriso ingênuo daquela garotinha. Isso me fez pensar que eu deveria sorrir mais, ser mais grato, ser menos apegado as coisas, que os problemas do passado já se foram, não precisava ficar me martirizando, culpando-me por algo que não podia controlar. O importante é aprender com os erros e seguir em frente, basta uma atitude de coragem e otimismo.

Levantei-me mudado e passei a olhar a vida, de uma outra perspectiva.