No fundo do poço

Encarei o meu reflexo no espelho….

– Como cheguei a esse ponto? – pensei.

Eu estava um lixo, acabado. Lavei o meu rosto e voltei a fixar os meus olhos naquela imagem em decadência. Como sempre, o dia para mim era uma batalha infindável.

– Ahhh! Mais um dia! Quando isso vai acabar?

No trabalho….

Eu olhava para tela do meu computador à minha frente, papeis empilhados ao meu lado, a desorganização na minha mesa era gritante, bem como o resto da minha vida. De repente, me deparei pensado nos tempos de juventude e refazendo as mesmas perguntas. O que aconteceu comigo?! Para onde foi aquele garotinho cheio de vida, entusiasmado e que um dia sonhava em conquistar o mundo?

Daí a pouco, senti o gosto da amargura descer por minha garganta; sentia a respiração ofegante, o suor  escorrendo frio pelo meu corpo, pensava comigo mesmo que esse seria o meu fim, mas não era, era apenas a ansiedade batendo à porta.

Subitamente…

– Roberto! – me assustei, voltei à realidade. Olhei para o meu supervisor que me fitava.

– Que foi? – perguntei.

– Você é surdo?

– Não.

– Por que não atendeu o telefone?

– Desculpe, eu estava distraído, são problemas da vida… nada demais.

– Sem desculpas, preciso do relatório até sexta. E dessa vez, não se atrase, caso contrário, terei que tomar medidas drásticas.

– Pode deixar.

– O que houve com você rapaz? Um dia você já foi um dos nossos melhores funcionários. Acho melhor você tirar o resto do dia de folga. Para ser franco, você está um lixo. Quando foi a última vez que você foi ao barbeiro e tomou um banho de verdade?

Ele tinha razão, eu havia me desleixado. Precisava de ar puro, sai apressado do prédio e me sentei na calçada. Fios de lágrimas escorriam pelo meu rosto. Bradei-me a chorar…

– Por que a vida tem que ser tão difícil, por que precisamos sofrer tanto? – murmurava eu.

Eu já não aguentava mais aquela carga emocional. O curioso, era que as pessoas que passavam à minha volta, não me dava a mínima importância. Eu só precisava de um consolo, uma palavra amiga, mas sofria só, como muitos neste mundo. Estamos presos dentro de nós mesmos, cada qual em seu mundo obscuro e impenetrável.

Levantei-me e segui rumo à praça central, me sentei no primeiro banco que encontrei. Tempos depois, uma mulher que empurrava um carrinho de bebê, se senta ao meu lado. Dentro do carrinho, havia uma pequena e delicada flor, a qual aparentava ter menos de sete meses que estava aqui neste mundo. Aqueles olhos buliçosos, cheios de vida, encaravam-me, como se compreendesse o que eu estava sentindo. Seu rosto delineava um sorriso tão doce e ingênuo, que nunca o esqueci.

– Sorria o máximo que puder garotinha, você não tem a menor ideia do que a vida lhe aguarda. Ela é fria, cruel e impiedosa – disse eu.

A mulher olhou para min, de forma assustada, levantou-se e sai apressadamente sem olhar para trás.

Senti-me o coração arder, aquele não era eu. Fiquei ali, inerte, por horas, refletindo sobre a vida; sobre as minhas atitudes, procurando as causas dos meus problemas, do meu sofrimento, das minhas frustrações, eu procurava um culpado… uma desculpa, mas para a minha surpresa, não havia. Era primavera; tudo emanava vida e delicadeza. Nas arvores, as flores eram um espetáculo, cada qual mais bonita do que a outra, senti-me revigorado. Aí eu pude compreender que a vida é muito mais do que acreditamos ser. Que nada é por acaso, que sou responsável por cada ato, e os meus problemas eram insignificantes, frente as maravilhas da vida. Lembrei-me do sorriso ingênuo daquela garotinha. Isso me fez pensar que eu deveria sorrir mais, ser mais grato, ser menos apegado as coisas, que os problemas do passado já se foram, não precisava ficar me martirizando, culpando-me por algo que não podia controlar. O importante é aprender com os erros e seguir em frente, basta uma atitude de coragem e otimismo.

Levantei-me mudado e passei a olhar a vida, de uma outra perspectiva.

 

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